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Você sabe o que é meliponicultura?

CRIAÇÃO DE ABELHAS
ESCRITO POR FLÁVIO CHRISTO, DE JUIZ DE FORA
27/11/2023 . SISTEMA FAEMG, SINDICATOS, SENAR

Criação de abelhas sem ferrão é opção produtiva que auxilia na preservação do meio ambiente

A apicultura é uma atividade em franco crescimento no Brasil. O faturamento do setor praticamente dobrou desde 2019, saindo de R$ 495 milhões para quase R$ 958 milhões em 2022, cerca de 93% de aumento, de acordo com dados do IBGE. Nesse cenário, as abelhas sem ferrão, assunto da meliponicultura, chama  cada vez mais a atenção de produtores, tanto por seu comportamento, quanto pelo alto valor agregado de seus produtos.

Enxame de Apis Mellífera

A produtividade média de uma colmeia de Apis mellifera, também conhecida como abelha africanizada, é de 35 a 40 quilogramas de mel por ano, com o preço de venda em torno de R$ 50 por quilo. Mas, com técnicas de manejo corretas e um ambiente saudável ao redor, é possível aumentar a produtividade. “Queremos chegar ao fim deste verão com uma produção média de 60 quilos por caixa. Nossa meta é produzir 1,5 tonelada”, explicou Leonardo Medeiros, apicultor da cidade de Juiz de Fora.

A abelha africanizada é apenas uma das diversas espécies capazes de produzir mel e outros produtos. As meliponas e as trigonas são dois grupos de abelhas sem ferrão que dão nome à meliponicultura, que é a criação de abelhas nativas e regionais. O Brasil tem mais de 250 espécies de abelhas destes grupos, como a jataí, irapuã, mandaçaia, mirim-luci, mirim-droryana e uruçu, criando variedades de mel que agradam aos mais diversos paladares, agregando valor ao produto vendido.

Colmeia de abelha boca de sapo
Colmeia de abelhas Mirim Luci

Mercado em expansão

O preço de um quilo de mel de abelha jataí, por exemplo, pode chegar a custar cerca de R$ 600. A produtividade de uma colmeia, no entanto, não passa de um quilo por ano. “O mel da Apis você consegue colher silvestre, com características florais. Já com as meliponas, a característica é a acidez, com consistências bem distintas. Cada abelha tem um mel com cor, sabor e textura diferentes. Tem mercado, mas é um público mais restrito. É usado na culinária, em drinks”, contou Alex Ferreira de Souza, presidente da Associação dos Apicultores de Juiz de Fora e Região (APIJUR). Ele é meliponicultor e apicultor.

Mel de abelha jataí e da Apis mellifera

As diferenças não ficam apenas no mel. A própolis, que também é chamada de geoprópolis, tem cores, sabores e aromas diferentes para cada espécie. O pólen é chamado de samburá. Em geral, as meliponas são menores que as abelhas africanizadas, com acentuadas diferenças físicas entre as espécies. A mandaçaia pode chegar a até 11 mm; já a mirim-luci, não passa de 3mm. Enquanto isso, a africanizada chega a medir 13mm.

samburá de abelha iraí

Apoio aos produtores

Para auxiliar apicultores e meliponicultores, está programado o início de uma turma de assistência técnica e gerencial (ATeG) para esses produtores na região de atuação do Sindicato Rural de Juiz de Fora. Durante 24 meses, 20 criadores de abelhas receberão assistência técnica e gerencial do Sistema Faemg Senar, de forma gratuita.

O gerente regional do Sistema Faemg Senar em Juiz de Fora, Emerson Simão, explica a importância de incentivar a criação de abelhas, uma atividade essencial não apenas pelo consumo de seus produtos, mas por seu papel biológico, responsável pela manutenção da biodiversidade e da polinização de diversas frutas e legumes que chegam à mesa do consumidor.

Alex ao lado de uma colmeia de abelhas iraí

“A apicultura se encaixa perfeitamente em áreas antes inutilizadas, aumentando assim a eficiência no uso da terra na propriedade, Além disso, traz alternativa de renda aos produtores, que encontram um mercado em plena expansão e ávido por seus produtos que, além de deliciosos, fazem muito bem a saúde”, acrescentou Emerson.

Preservação ambiental e recuperação de espécies

Por serem em sua maioria endêmicas, as abelhas nativas são naturalmente adaptadas para polinizar as mais diversas espécies de plantas da região. Outra vantagem da meliponicultura é sua capacidade de recomposição da biodiversidade e preservação do meio ambiente. A atividade também auxilia na recuperação das populações de espécies ameaçadas de extinção. “Todas as abelhas são benéficas ao meio ambiente, algumas flores que as africanizadas não conseguem polinizar, por conta do tamanho, a jataí consegue, pois é menor, como é o caso do morango, por exemplo. A mamangava é ótima para o maracujá”, comentou Alex.

Leonardo em seu apiário, na cidade de Juiz de Fora

Pela lei ambiental, o produtor não pode fazer o manejo de uma colmeia que tenha se instalado em ambiente silvestre. Mas é permitida a captura de enxames que se desprendem dessas colmeias, com o uso de iscas. Apenas abelhas endêmicas podem ser criadas. Não é permitida a criação de espécies exóticas.

Além de não gerar competição entre as espécies, a criação de diferentes tipos de abelhas complementa o trabalho de polinização, tornando-o mais eficiente. “Um ambiente de polinização saudável tem pelo menos três espécies diferentes executando este trabalho”, é o que explica o zootecnista Arthur Sodré. “Hoje as abelhas sem ferrão são quase um pet, por ser possível que elas convivam no meio urbano. Elas viraram as queridinhas das pessoas, pois compõem ambientes, hortas comunitárias, jardins, além de serem nativas e terem a vocação natural para conservar esses ambientes”, completou o zootecnista.

Abelha rainha da espécie mirim luci

A presença de abelhas é um forte marcador ambiental. Elas são sensíveis a mudanças ambientais e ao desequilíbrio ecológico, sendo que sua presença é um indicador de equilíbrio e saúde no ecossistema. Elas são responsáveis pela polinização de mais de 80% das plantas, possibilitando a geração de frutas e sementes. Atualmente, as abelhas são animais considerados sob ameaça de extinção.