Compartilhe


“Estamos sofrendo um ataque desleal”

CT PECUÁRIA DE LEITE
ESCRITO POR JANAÍNA ROCHIDO E IZAMARA ARCANJO, DE BELO HORIZONTE
08/06/2023 . SISTEMA FAEMG, SINDICATOS, FAEMG

Produtores e entidades do setor criticam importação predatória de leite, que ameaça sustentabilidade da atividade no Brasil

 

Entidades representantes do setor da pecuária leiteira criticaram fortemente a importação predatória de leite subsidiado e de derivados lácteos, em especial de países do Mercosul como Uruguai e Argentina, durante a reunião da Comissão da Bovinocultura de Leite da CNA, realizada na quarta-feira (7). A intenção é levantar formas de resolver um problema que afeta toda a cadeia do produto. A questão foi o ponto principal da reunião, feita durante a 18ª Exposição Brasileira do Agronegócio do Leite (Megaleite 2023), realizada no Parque da Gameleira, em Belo Horizonte.

As importações de lácteos somaram 146,1 milhões de litros em equivalente leite em abril, segundo os últimos dados do Boletim do Leite de maio, divulgado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ), da Universidade de São Paulo (USP). O volume importado segue em patamar elevado, correspondendo a mais que o triplo do registrado em abril de 2022. Considerando-se o primeiro quadrimestre, o volume importado neste ano foi três vezes superior ao adquirido no mesmo período do ano passado.

“Estamos sofrendo um ataque desleal, que é a importação de leite em pó, muitas vezes subsidiado nos países de origem, entrando aqui de forma desleal para o nosso produtor e isso afeta, principalmente, o pequeno produtor. Estamos trabalhando fortemente este tema, não só com a CNA, mas junto com as cooperativas, Ocemg, Girolando, Abraleite e OCB, para que a gente impeça esse comércio predatório”, explicou o presidente do Sistema Faemg Senar, Antônio Pitangui de Salvo, que participou da abertura da reunião.

Antônio de Salvo ainda garantiu que o Sistema vai continuar mostrando o trabalho do produtor mineiro na pecuária leiteira de Minas, tornando o setor uma referência nacional. “Vamos continuar avançando, mantendo o produtor no campo, mas, mais do que isso, dando uma vida digna a ele, com renda e com qualidade de vida, para que ele possa continuar produzindo esse produto tão importante que é o leite”, avaliou.

Juntos pelo produtor brasileiro

A reunião promovida pela Comissão da Pecuária de Leite da CNA, além do tema das importações sem controle, trouxe outro assunto importante para o produtor rural: os desafios da produção. Minas Gerais é o maior produtor de leite do Brasil, com a participação de 27,1%, na fatia nacional, o que corresponde a 9,4 bilhões de litros produzidos e 1,2 milhões de trabalhadores diretos, segundo dados do IBGE.

Jônadan Ma é presidente da Comissão Técnica de Pecuária de Leite do Sistema Faemg Senar e vice-presidente da Comissão de Bovinocultura de Leite da CNA. Para ele, trazer uma comissão nacional para discutir presencialmente e, em conjunto, na Megaleite, sempre dá mais fluidez às informações, questionamentos e troca de experiências. “Vimos quão importante foi ter oportunidade de nos associar à outras instituições convidadas, que participaram e sentiram nosso drama como produtores de leite. Isso vai dar mais força para as federações e produtores na hora de buscar uma solução, principalmente nesta questão mais emergencial que é a importação predatória do leite”, avaliou Jônadan.

Para o presidente da Comissão da Bovinocultura de Leite da CNA, Ronei Volpi, a realização de uma reunião descentralizada, fora de Brasília, traz um ponto estratégico fundamental. “Essa é a oportunidade perfeita para que os produtores de leite, em especial os de Minas Gerais, possam conhecer melhor e debater sobre o que a comissão faz no dia a dia. Para além disso, é uma oportunidade para discutirmos nossas ineficiências internas, uma vez que nossa cadeia é muito grande e sensível. Temos muito a fazer para melhorar, para chegarmos ao nível médio internacional, apesar de que temos produtores que não perdem em nada para qualquer outro produtor do mundo inteiro”, garantiu Volpi.

Leite subsidiado

O Brasil importou quase 70 mil toneladas de leite, creme de leite e laticínios (exceto manteiga ou queijo) no primeiro quadrimestre deste ano, de acordo com informações da plataforma ComexStat, do governo federal.

O leite que o Brasil importa de seus vizinhos sul-americanos é, tradicionalmente, 15% mais barato que o nacional, mas a escalada dos valores no Brasil fez a diferença percentual dobrar este ano. Dados do Observatório da Cadeia Láctea Argentina (Ocla) mostram que, enquanto o produto brasileiro foi vendido por cerca de 55 centavos de dólar em março, os da Argentina e Uruguai tiveram médias de 41 e 42 centavos de dólar, respectivamente.

}