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Cachaçarias de portas abertas no Campo das Vertentes

JORNAL EM CAMPO
ESCRITO POR CARLA ARANTES, DE JUIZ DE FORA
11/09/2026 . SISTEMA FAEMG, SENAR

Entre goles e histórias, produtores ajudam a valorizar a cachaça artesanal

Uma família de produtores de cachaça e contadores de história. Há quase 300 anos, o Engenho Boa Vista, em Coronel Xavier Chaves, transforma o sumo da cana na bebida genuinamente brasileira. É o alambique mais antigo do Brasil em atividade. Ao longo desse tempo, os contos e causos se acumulam. A família se orgulha do parente famoso, o tio-oitavo avô Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, irmão da oitava avó de Nando Chaves, o mestre alambiqueiro da cachaça Século XVIII. Essa é uma das histórias que ele e os filhos, João e Francisco Chaves, contam para os turistas que visitam o engenho.

A visitação começou há muitos anos, de forma espontânea. “O meu pai sempre recebia quem chegasse, não tinha dia, nem hora. Às vezes ele deixava a mesa do almoço para atender as pessoas que queriam conhecer o alambique”, contou João. Agora, são os filhos que têm essa função, mas de forma mais organizada. Quem chega sem avisar, ainda é muito bem-recebido, mas, desde o início de 2026, a visitação passou a ser agendada e é cobrada uma taxa de R$35 por adulto, que ajuda na manutenção e no custeio de ajustes para receber os visitantes, como instalação de sistema de combate a incêndios, banheiros e brindes.

Depois de conhecerem todo o processo de produção e as histórias da propriedade secular, é hora de experimentar a bebida. “A cachaça é maravilhosa, a história da cachaça é melhor ainda e o contador é muito bom”, afirmou Edésio Santos, que veio de Taubaté (SP) para conhecer a região.

O casal Patrícia Sparano e José Arraes, do Rio de Janeiro, também se encantou com a recepção. “Não é aquele marketing para pegar turista”, avaliou José, que é publicitário, “é a uma família que está abrindo a empresa, a casa, a vida deles e nos contando a história deles, o que torna tudo muito legal. Foi uma feliz coincidência a nossa visita”, conta.

Pensado para receber

Em Bichinho, distrito de Prados, famoso pelo artesanato e a culinária mineira, existe, desde 2016, a Cachaça Mazuma, que, ao contrário da colega histórica, já nasceu com o objetivo de ser um espaço para visitação. Engenheiro eletricista de formação, Fábio Mattioli Gonçalves fez um curso de mestre alambiqueiro quando se aposentou. A paixão pela cachaça foi grande e ele decidiu, então, montar um negócio em que unisse a tranquilidade da vida no interior com a produção da bebida.

Em um terreno de 12 hectares, construiu o alambique, uma cava com barris de madeira onde a bebida é envelhecida e a loja, tudo no estilo colonial, seguindo a arquitetura das cidades históricas próximas, como Tiradentes e São João Del Rei. Posteriormente, Fábio montou também outra destilaria, onde produz gin e vodka. As visitas guiadas são feitas diariamente, exceto às quartas-feiras, e duram cerca de duas horas. Crianças de até 12 anos pagam R$35 e adultos R$100.

“A Mazuma tem um pouquinho de cada uma das minhas experiências profissionais. Trabalhei em indústria, com foco em controle de qualidade, e, antes de ter o alambique, trabalhei na área de decoração de interiores. Então, cada detalhe dessa estrutura está associado à qualidade e à plástica do nosso produto, que tem um alto valor agregado”, explicou.

Valorização da cachaça

As duas propriedades fazem parte da primeira turma do Programa de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) de cachaça oferecido pelo Sistema Faemg Senar em parceria com o Sindicato Rural de São João Del Rei.

Filipe Monteiro é o técnico de campo responsável pelo atendimento. Além de orientar o processo produtivo, desde o plantio da cana até o envase, trabalha também o gerenciamento do negócio. Para ele, a abertura das cachaçarias à visitação é um ganho não só para o produtor, mas para toda a cadeia. “Quando você traz o visitante, você mostra quão bem-feita é a sua produção, isso valoriza o produto. O cliente faz a compra direta e ainda espalha a história da cachaçaria para outras pessoas”, afirmou.

Essa disseminação não respeita fronteiras. Na loja da Mazuma, Eden Ball, uma turista dos Estados Unidos, provou a cachaça mineira e levou uma garrafa para presentear os amigos. “Eu amei, aprendi muito”, disse a turista.