Mil metros quadrados. Essa é a área que, segundo o técnico de campo do Programa de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) do Sistema Faemg Senar, William Dias Teixeira, basta para iniciar uma criação de aves com resultado expressivo. Em um contexto em que o acesso a grandes áreas pode ser um dos principais limitadores para quem quer iniciar no agronegócio, a avicultura se apresenta como uma alternativa capaz de gerar produção e receita em espaços reduzidos, ganhando espaço entre produtores de diferentes perfis em Minas Gerais.
"Com uma área de mil metros quadrados você consegue ter bons resultados. Sem contar que a avicultura é relativamente fácil quando você tem controle de biosseguridade no início da criação, fazendo as vacinações de forma correta, entre outras práticas. E o produtor ainda tem a oportunidade de envolver toda a família nas etapas de produção", explica o técnico, que acompanha um grupo de produtores da região de Betim, por meio do Sindicato dos Produtores Rurais do município.
No grupo, as áreas destinadas à avicultura variam de 90 m² a 5.000 m², no que diz respeito a aviário e piquete, com média de 980 m² por propriedade. Os plantéis vão de 80 a 1.700 aves, com média de 478 por produtor, números que mostram o quanto a cadeia permite iniciar com estrutura simples e crescer de forma gradual conforme a capacidade de investimento e o mercado.
Essa flexibilidade de escala é um dos destaques da cadeia, na avaliação da analista de ATeG Paula Lobato. "Uma das principais vantagens da avicultura para pequenos produtores é a possibilidade de gerar uma quantidade significativa de produção e receita em uma área relativamente reduzida. Diferentemente de atividades que dependem de grandes extensões de terra, ela permite uma produção mais intensiva, desde que exista estrutura adequada e sejam respeitados os requisitos de manejo, biossegurança e bem-estar animal", afirma.
Outro diferencial é a frequência com que o produtor recebe pela produção. "Na produção de ovos, a partir do momento que a ave entra em postura, a entrada de recursos pode ser praticamente diária ou semanal, o que contribui para o fluxo de caixa da propriedade", explica.
A escolha do modelo de criação, segundo ela, não é padronizada, pois leva-se em conta a realidade de cada produtor, disponibilidade de área, mão de obra, estrutura e, principalmente, o mercado que pretende atender. "Dentro do ATeG, trabalhamos principalmente com sistemas de produção de ovos e, em menor quantidade, frango para corte, com ênfase para a avicultura caipira”, conta.
Do quintal ao negócio estruturado
Foi exatamente esse caminho que o produtor rural Nilson Nogueira de Rezende Amaral percorreu. Educador físico de formação, ele sempre teve ligação com o campo, mas foi durante a pandemia que o projeto saiu do papel. “Isolado” num sítio no condomínio Quintas da Gentileza, em Betim, com a renda de personal trainer praticamente zerada, Nilson usou o tempo para pesquisas e estruturação do projeto que batizou de Granja Gentileza ou Ovos Gentileza, em homenagem à localidade onde o sonho nasceu.

"Iniciei com um galpão e 600 aves, arrendando uma propriedade na região. Depois fiz mais um de 800 e outro de 200. Hoje tenho 1.600 aves e produção média de 42 mil ovos por mês", conta. Cinco anos depois, a granja tem marca consolidada na cidade, carteira de clientes fixos e produção 100% comprometida. "Quem conquista o mercado ali não para mais", reforça o produtor.
A história de Nilson ilustra o movimento que os profissionais do segmento vêm observando na região. "Nesse último ano, houve um crescimento significativo. Vejo um melhoramento na criação e aumento na demanda pelo ovo caipira. Outras pessoas que não estão no ATeG estão procurando informações, novos caminhos para entrar na atividade", relata William.
Além disso, Minas reúne condições favoráveis ao desenvolvimento da avicultura, com mercado consumidor expressivo, disponibilidade de insumos, infraestrutura e presença de agroindústrias e produtores inseridos em sistemas organizados de produção. A proximidade com a Região Metropolitana de Belo Horizonte é outro fator que potencializa esse crescimento.
Avanços e desafios
Entre os principais avanços observados, estão a redução do custo com ração, a melhoria genética das aves e a diversificação dos canais de venda. "Incentivamos o produtor a buscar novos mercados e agregar valor ao produto, vendendo em dúzias ou em pentes de 20 ovos. O resultado tem sido expressivo", revela.
Contudo, os desafios são concretos. A regularização da criação junto aos órgãos competentes ainda é um gargalo. "Sem isso, não é possível avançar e atender um mercado maior", avalia o técnico. A sazonalidade é outro ponto: em períodos de alta oferta, o preço cai e o escoamento fica difícil. “A resposta está na qualidade e na fidelização do consumidor”, pontua.
Para Paula Lobato, é justamente nesses momentos que o acompanhamento técnico faz a diferença. "Um dos grandes diferenciais do ATeG é acompanhar a evolução da propriedade por indicadores produtivos, econômicos e gerenciais. Não avaliamos apenas quanto o produtor produz, mas quanto custa produzir e quanto efetivamente sobra como resultado", afirma.
Os números do grupo acompanhado em Betim ilustram essa lógica: em um ano, as 28 propriedades atendidas registraram custo operacional efetivo de R$ 1,2 milhão e receita total de cerca de R$ 2 milhões, gerando movimentação de R$ 3,2 milhões na região. O programa atende hoje 293 propriedades na cadeia avícola no estado, com dez técnicos de campo e quatro supervisores.
O potencial da atividade, segundo Paula, se distribui pelo estado: o Norte de Minas é referência na estruturação da avicultura de pequenos produtores, com Porteirinha como exemplo de como assistência técnica e organização consolidam a cadeia regionalmente. Na Região Central, o crescimento recente é expressivo: mais de 100 dos cerca de 300 produtores acompanhados estão nessa área, impulsionados pela proximidade com grandes centros e pela demanda por produtos diferenciados.